Maurício Cid do Não Salvo conta as loucuras que já fez pelo Corinthians

Danilo Vieira Andrade

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O barbudo Maurício Cid é o criador do blog de humor NãoSalvo e corintiano desde 1995 (Arquivo Pessoal Mauricio Cid)
Por Maurício Cid: 

Cara, para começar já te aviso, não acompanho campeonato gringo. Torcedor de Playstation é meio bad vibe. Na final da Champions, eu fui ver no cinema 3D. Fiquei assustado com as crianças, realmente torcendo para o Bayern. Tá virando torcida de Playstation. Simpatiza mais com o time do videogame do que com o time real. Enfim, vamos falar de Corinthians. 

Eu lembro como se fosse hoje o exato momento em que eu virei corintiano. Foi por causa da escola de samba, no ano em que foi campeão. Eu estava cantando a música ‘Me dê a mão…’ e meu pai disse que era do Corinthians. Aí eu falei que era corintiano. Tinha 10 anos, isso foi em 1995. Mas, como eu sou de Santos, o meu primeiro jogo no estádio foi Santos e Fluminense. Eu fiquei na torcida do Santos torcendo para o Fluminense, o Flu ganhou. Meu pai olhou e disse que não podia comemorar. Eu nunca gostei do Santos. Sei lá por quê.  

Eu nasci em Santos, mas a maioria [da população] é de corintiano. Eu já subi na estátua da praça da independência, em Santos, pra colocar a bandeira do Corinthians na cabeça do bicho lá. A rivalidade é essa. Mas eu nunca fui com a cara do Santos, desde sempre. 

Meu pai também é corintiano, já foi da Gaviões [da Fiel], mas ele nunca me influenciou, nunca falou nada de futebol, meio que eu escolhi sozinho mesmo. Meu avô, que era são-paulino, tentava me comprar. Ele falava que, se eu virasse são-paulino, ele me dava um bombom. Eu torcia para o Corinthians normalmente, mas quando me ofereciam chocolate, eu falava que torcia pelo São Paulo. Eu sou gordinho, pô. Mas chegou uma hora que eu não queria mais bombom. Meu ídolo no Corinthians é o Marcelinho Carioca. Ainda mais que um dos gols mais bonitos que eu vi do Corinthians foi do Marcelinho em cima do Santos, com o Edinho no gol.  

Não existe palmeirense em Santos. Eu nunca soube explicar muito isso, mas tem muito palmeirense em Praia Grande e nenhum em Santos. É quase zero a torcida. É Santos e Corinthians e só, a rivalidade é essa. São-paulinos têm alguns, mas palmeirenses realmente não tem. 

Quando eu tinha 14 anos, ia escondido pros jogos aqui em São Paulo. Eu nem podia vir sozinho para São Paulo, pegava ônibus escondido, ia na sede da Gaviões em São Vicente e vinha. No primeiro jogo, eu fui, mas não sabia voltar.  Foi no Morumbi, não me lembro contra qual time. Acho que era o Goiás. Isso foi no Brasileiro de 1999. O jogo acabou meia-noite, o último ônibus para Santos era uma da manhã e o metrô fechava meia-noite  e meia. Eu fiquei ilhado no Morumbi, sozinho, não sabia o que fazer. Fui junto com a maré, e fiquei esperando no Habibs. Na volta, eu encontrei uma van, com uma placa de Santos. Por coincidência, o motorista era meu vizinho. Pedi uma carona para ele, mas ele disse que cobraria R$ 50 e não me deu a carona. Fiquei no Habibs, começou a chover muito e um carro morreu na frente do Habibs. Saiu eu e mais três corintianos perdidos e fomos empurrar a Brasília do cara. A gente ficou tentando empurrar  na chuva, ele conseguiu arrancar, acelerou, jogou água na gente e ainda gritou: ‘Valeu, seus corintianos trouxas!’. No dia seguinte, eu consegui pegar um ônibus e minha mãe achou que eu tivesse morrido. Essa foi a primeira vez que eu fui escondido assistir jogo. Nas outras eu já não fui em ônibus de torcida. É um nível acima de maloqueiragem, não dá. Os ônibus param, os caras entram na padaria, pegam pão e não pagam. Assim. Comecei a ver essas coisas e pensei que podia dar uma merda a qualquer momento. Eu nunca arrisquei. 

O dia que eu fui para o Japão com meu pai, peguei um avião só com a Gaviões e também foi bizarro. Tinha cara lá que não tinha o que comer lá, gasto todo dinheiro na passagem. Dormia na rua, com o casaco mais forte e ficava filando pedacinho dos outros. Eu mesmo paguei uma janta para o cara. Muita gente vende carro e moto para ir para lá. Eu vim ao lado de uma torcedora símbolo do Corinthians, com 92 anos, ela não falava nada, só abria a boca para berrar os gritos de guerra do Corinthians. Foi a viagem inteira aos gritos de guerra do Corinthians. A 1ª classe era só gringo e a executiva, só corintiano. O piloto pediu para parar de pular. A torcedora de 92 anos só abria para gritar Corinthians. Até tirei uma foto com ela, botei no Instagram. O Corinthians foi campeão e um mês depois ela morreu. Morreu feliz.  

Cara, o maior jogo da minha vida. O jogo que eu quase morri do coração foi o Corinthians e Santos, na semifinal do Campeonato Paulista de 2001, que o Marcelinho Carioca deixa bola passar e o Ricardinho faz o gol. Aquele dia eu quase quebrei tudo em casa. Tinha um vizinho que era anti-corintiano, podia estar jogando Corinthians e Piraporinha, se saísse gol do Piraporinha, ele comemorava como se fosse gol do Brasil em final de Copa do Mundo. E ele ficou puto.  

Eu gosto de ver jogo sozinho. Eu tranco tudo, janela, porta, sentava na posição certa, usava a cueca da sorte. Tinha todo um esquema pra dar certo nas decisões. Eu lembro que teve a final do Brasileiro de 1998, contra o Cruzeiro, e o Corinthians ganhou no Mineirão. Eu fique puto porque o Corinthians tinha ganhado, e meu pai não entendia. Na minha cabeça, o Corinthians tinha que perder de pouco, pra quando chegasse no Pacaembu, ter a motivação pra ganhar. Ele ter ganho fora de casa não daria a motivação pra ganhar em casa. 
Eu estou com essa barba gigante por causa do Corinthians. Não tinha [a barba]. Caro de mendigo eu sempre tive, mas a barba não. 

É novidade. Na verdade eu tinha feito uma promessa, que mesmo como torcedor do Corinthians, eu não acreditava que fosse ser campeão da Libertadores. E ai eu prometi que, se ganhasse, eu deixaria a barba crescer até o primeiro jogo do Corinthians na Libertadores seguinte. 

Então o Corinthians ganhou e eu deixei a barba, mas eu estou gostando dela, então estou deixando ela por enquanto. Eu confesso que no jogo contra o Boca Juniors [eliminação em 2013] eu fiz mais uma promessa, que era deixar mais um ano. Só que como não ganhou, não tem porque pagar também. Mas está valendo como estudo antropológico, saber como funciona ficar com essa barba. Se eu estiver na rua de camiseta e chinelo o pessoal já me olha meio torto. É interessante.  

A final da Libertadores de 2012 foi uma das coisas mais estranhas de futebol que eu vi. Disparado. Eu fui no Pacaembu, ganhou. Eu e meu amigo, o Luigi, saímos e tava uma zona absurda. A gente queria chegar na Paulista. Eu sou turista aqui em São Paulo. Não sei onde são os picos de comemoração. Para ir para a Paulista, tinha uma subida dos infernos. Por isso, começamos a pedir carona. O primeiro carro que parou, gritou: ‘vocês são corintianos?’. Já respondi sim. ‘então entra ai que eu levo vocês para onde for’. E o cara tava indo para o outro lado e deixou a gente na paulista. A Paulista tava parada. O mais assustador foi ver o tipo de comemoração.  Tinha cadeirante em cima de ônibus. Passava caminhão de lixo, a galera parava o caminhão de lixo. Rolava no lixo, ficava jogando lixo para o alto. Era um negócio de outro mundo. Na augusta, a gente desceu para comprar cerveja, a mulherada passava de carro mostrando os peitos e gritando ‘Vai, Corinthians!’. Tinha cara de muleta em cima de ônibus. Tinha anão em cima das coisas. Parecia cenário da Rússia. Só coisa estranha acontecendo. Um cadeirante, um anão e um aleijado em cima do ônibus não é todo dia que eu vejo. Invadiram um caminhão pipa, tiraram o motorista do volante, abriram a parada lá de cima e fizeram uma piscina. Eu fiquei bem chocado com a Paulista, assim.  

Cheguei em casa 5h da manhã. Meu pai tava aqui e falou: ‘Cara, a gente não tem uma viagem?’. Eu esqueci que tinha aeroporto às 6h da manhã para ir para a Espanha.  

Eu gosto muito mais do Corinthians do que da minha namorada. Você tem que me perguntar: ‘Minha mãe ou Corinthians?’ Corinthians! Não precisa baixar o nível. Eu já terminei com uma namorada por causa disso. Ela me fez exatamente essa pergunta e eu dei exatamente essa resposta. 

O que eu mais gosto é o Corinthians. O que eu odeio é Neymar. Odeio tanto quanto odeio o Facebook, que é a rede social que eu mais odeio.  Odeio ele por causa daquela história dos ovos de páscoa, eles não desceram do ônibus e ficaram tocando pagode. Depois disso, não tem como. E: ‘Vai, Corinthians!’ 

(Depoimento para o editor Ricardo Zanirato) 

Fonte: Fox Sports