Porque faz isso Romarinho? Conheça o mais novo xodó da Fiel

Danilo Vieira Andrade

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Romarinho, o xodó da Fiel / Crédito: 

Alexandre Battibugli
Ao fm da entrevista à PLACAR, Romarinho se levanta, sai da sala onde acabara de ser fotografado no CT do Corinthians e acena em direção ao grupo de fãs histéricas que gritam seu nome do outro lado da grade. Um membro da comissão técnica corintiana brinca com a situação: “O que a bola não faz, hein?”
Critérios de beleza à parte, justiça seja feita. Ao contrário do jogador folclórico padrão, Romarinho representa mais que um talismã para o Corinthians e um xodó para a torcida. Sua importância no time que conquistou quatro títulos em três anos cresceu. Embora não tenha vaga cativa na equipe titular, ele passou a se encarregar de boa parte das cobranças de falta e escanteio e também tem a missão de atacar e defender, cumprindo à risca o esquema do técnico Tite.
“Em alguns times, meia e atacante não marcam. Mas, no Corinthians, tive de me adaptar, senão eu não jogaria”, diz o meia, sem demonstrar insatisfação. “Não me sinto sacrifcado. Para ser valorizado na Europa, eu tenho que marcar e atacar.” Tite está satisfeito. “O Romarinho é inteligente e cumpre uma função tática fundamental”, afrma o treinador, que preza pela objetividade acima do futebol-arte.
“Antes, eu via muito os jogos do Ronaldinho [Gaúcho]. Ele dava passe e virava a cara. E eu achava o maior barato. Só que aqui não tem jeito de fazer isso. O Tite não deixa.” Mas há outras coisas que Romarinho faz com os rivais, seja na Bombonera, seja no Pacaembu, que conquistaram a admiração do técnico e, principalmente, a idolatria da Fiel.
Eu sou a lenda
Foi de primeira. Logo depois de estrear pelo Corinthians, com dois golaços sobre o Palmeiras — um deles de letra —, em junho de 2012, Romarinho tornou-se um mito, a personifcação do estereótipo “maloqueiro” do corintiano. Sobretudo três dias depois, ao encobrir o goleiro Orión, do Boca Juniors, com uma cavadinha na Bombonera.
“Postei a foto dele e uma montagem tosca feita no Paint, com os dizeres: ‘Pq fas iso, Romarino?’ Aí a coisa espalhou…”, conta Kelvin Thiago, 19, criador da Corinthians Mil Grau, uma página do Facebook em alusão às travessuras de Romarinho com os adversários e o rival alviverde. A frase turbinou a fama do meia, que virou meme da internet — termo utilizado para definir fenômenos instantâneos que viralizam pela rede. “Na rua, os caras me param para tirar foto e sempre soltam um ‘Por que faz isso, Romarinho?’ Até são-paulino, cara. Pegou mesmo”, afirma.
A página que publica mensagens com erros ortográficos  propositais e também brinca com outros jogadores — Ralf, por exemplo, é o “Cachorro sem coleira” — repercute no vestiário corintiano. “O Guerrero ‘Traficante peruano’ é um dos mais zoados. Ele e o ‘Gamarra negro’ [Gil]’”, conta Romarinho, que diz estar acostumado à “zoeira sem limites”, um dos lemas da Corinthians Mil Grau.
Apesar de não ser fã do cantor, ele teve de aceitar o apelido imposto pelos boleiros por causa de seu cabelo. “No começo eu me irritava quando me chamavam de Djavan, mas nem ligo mais. Todo ‘negrinho’ sofre com apelido. Não tem jeito, né?” 

Frase do xodó

“O jogador é lembrado pelos momentos decisivos, pelos grandes jogos que decide.”
Romarinho, sobre os gols diante de Boca e Palmeiras
Eu sou o cara
O Romário do Corinthians não tem ligação com o xará tetracampeão. É fruto de uma mistura do nome do pai, Ronaldo, com o do avô, Mário. Ex-cortadores de cana, os pais de Romarinho hoje se dividem entre Palestina, sua cidade natal, a 500 km de São Paulo, e o apartamento na zona leste de São Paulo, alugado do zagueiro Chicão. “Eles são da roça, né? Minha mãe gosta de ir a pé pra igreja. Meu pai gosta de um botequinho. Não fcam bem aqui, não”, diz.
Antes do estrelato, o primeiro clube em que Romarinho se destacou foi o Rio Branco, de Americana (SP). Lá, formava dupla de ataque com o centroavante Lincom, com quem também atuaria no Bragantino. O salário de 500 reais era incrementado pelo amigo. “O Lincom falava: ‘Em vez de você fazer o gol, toca pra mim que eu te dou 50 reais’. Eu achava os 50 reais mais interessantes”, conta.
Além das assistências, Romarinho ainda recebia por penalidade cavada. “Eu sofria o pênalti, ele ia lá e batia. Até dava uma forçada. Chegava na área, caía e gritava: ‘Aaaai!’ Cavei uns oito pênaltis…” As finalizações, hoje trabalhadas à exaustão por Tite no Corinthians, eram raras naquela época. Assim como os telefonemas dos amigos. “O Romarinho é tão fora de área que tentei ligar pra ele depois do jogo contra o Boca, na Argentina, e não consegui”, conta Lincom. “O celular dele era de crédito [pré-pago] e não pegava fora do país.”
Romarinho segue “pão-duro”. Da viagem ao Japão, para o Mundial de Clubes no fm do ano passado, não trouxe nem sequer um souvenir para os familiares. Por que faz isso, Romarinho? “Eu sou um pouquinho mão de vaca mesmo. Mas hoje dei uma mudada. Celular de crédito não existe mais.” Era desse aparelho que ele ligava — a cobrar — para Hérico Cardoso, técnico que o descobriu aos 5 anos em um campinho de terra de Palestina, o “Buracanã”, ao longo do período de um ano e meio nas categorias de base do São Paulo.
Aos 12 anos, Romarinho foi dispensado do Tricolor por indisciplina e por não gostar de estudar. “Eu era muito novinho e tinha saudade da família. Aí eu fazia bagunça”, diz. “No São Paulo, ele tinha uma mordomia danada, mas não aproveitou a oportunidade. Ele preferiu fcar ao lado do pai e da mãe”, afrma Hérico. O meia se explica. “Desde a época do São Paulo, a zoeira não tinha limites. Não me toleraram. Acho que hoje eles devem ter se arrependido. Mas pra mim não faz diferença.”
Quando voltou a Palestina, Romarinho quase desistiu da bola. Passava a maior parte do tempo em casa assistindo aos episódios do Chaves, o que lhe rendeu o apelido de Seu Madruga. Mas, apesar do São Paulo, nem todos abriam mão de seu talento. “Eu o levei para um teste no Marília”, conta Mauro da Silva, que trabalha com Hérico na escolinha da prefeitura. “O diretor de lá falou assim: ‘Dá esse moleque pra mim?’ ‘Eu não posso. Esse menino é uma pedra preciosa. Preciso lapidá-lo, porque ele ainda vai valer muito dinheiro.’”
Romarinho ainda rodaria por times do interior de São Paulo até chegar ao Bragantino, em 2011, onde conservava outro traço de sua personalidade, além da frieza: a timidez. Quando era indicado para as entrevistas coletivas no clube, dava um jeito de escapar pelo portão dos fundos. No Corinthians, consegue contar nos dedos quantas vezes esteve diante de jornalistas, câmeras e microfones: quatro, sendo uma delas de improviso, no gramado.
Por que faz isso, Romarinho? “Não gosto dessas coisas de entrevista, não.” Aos poucos, ele deixou de dar furos em compromissos — apareceu no horário para a entrevista à PLACAR — e tenta lidar com o assédio de torcedores e da imprensa. Rotina bem distinta da vida pacata que levava em Palestina, dos tempos de Seu Madruga, menos de cinco anos atrás. “Corinthians é outro mundo”, diz.
Eu sou o carrasco
Ao falar do Palmeiras, os olhos de Romarinho brilham. Afinal, em três jogos contra o rival, ele marcou quatro gols e nunca perdeu. Em um deles, no segundo turno do último Brasileirão, gerou intriga ao comemorar de frente para a torcida alviverde no Pacaembu. “Antigamente, tinha muito isso, né? Quando faziam gol, os caras imitavam porco. Eu já vi, não me lembro quem foi…”, afrma, até ganhar um refresco para a memória. “Isso! O Viola. Era legal esse negócio. É lógico que tem que ter respeito, mas é futebol, pô. O pessoal não devia levar a mal essas brincadeiras.”
Questionado se já pensou em alguma comemoração especial contra o Palmeiras, o meia guarda segredo, mas não suas intenções. “Eu já pensei [risos]. E, se Deus quiser, eu ainda vou fazer essa comemoração sobre o Palmeiras. É surpresa.” E de onde vem tanta vontade de fazer os rivais sofrerem a seus pés?
Quando criança, Romarinho era santista — não praticante, segundo ele. “Nunca fui torcedor, não. Na verdade, eu sempre fui corintiano”, desconversa. Oferecido pelo Bragantino em 2012, ele havia sido desprezado por Santos, São Paulo e Palmeiras. O que motiva um sorriso sarcástico em seu rosto ao remoer uma lembrança. “Meu primeiro gol como profssional foi no Marcão.” O jogo era pelo Campeonato Paulista de 2010. Ele vestia a 10 do Rio Branco quando recebeu uma bola esticada pela direita e tocou por baixo de Marcos. A partida terminou 2 x 2.
Em junho de 2012, com dois golaços que fizeram o Corinthians entregar a lanterna do Brasileiro ao rival, que acabaria rebaixado, o Verdão ouviu falar novamente de Romarinho. O palmeirense Hérico também teve de ouvir. “Depois de fazer aquele estrago no meu time, o Romarinho me ligou e disse: ‘Foi mal’”, conta o ex-treinador, lembrando que uma suposta rixa entre seu pupilo e o ex-volante do Palmeiras, Marcos Assunção, poderia explicar a inspiração de Romarinho diante do alviverde.

Frase do xodó 2

Desde pequeno, eu tinha um sonho: ‘Se eu jogar num time grande, vou fazer a diferença em um clássico'”.
Durante a passagem pelo Rio Branco, ele foi agenciado pelo olheiro Orzi França e por Assunção, que investia em jovens promessas quando atuava pelo Grêmio Prudente. A parceria ruiu, e Romarinho fechou com o empresário Carlos Leite, que hoje detém 50% de seus direitos econômicos. O meia de 22 anos, porém, prefere recorrer a outra explicação. Ou melhor, a algo que não tem explicação. “Não sei o que acontece. É o Palmeiras. Contra eles, dá tudo certo.”
Romarinho diz que sua estrela “de vez em quando se apaga, mas brilha na hora certa”. Foi assim na final da Libertadores, quase um acaso, já que, poucos dias antes de encarar o Boca, ele nem sabia se seria inscrito na competição. “Já sonhei bastante com aquele lance. Pra mim, o gol na Bombonera é mais marcante que os quatro em cima do Palmeiras”, diz. O torcedor talvez não tenha a mesma facilidade para escolher, mas não se cansa de perguntar: por que faz isso, Romarinho? “Contra o Palmeiras, se eu estiver no banco, eu entro e faço gol. Fazer o quê?”
Fonte: Placar