Ciumento, Tite mantém apartamento em São Paulo à espera de retorno

Danilo Vieira Andrade

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Tite voltará a ser reverenciado pela torcida do Corinthians – seja no Pacaembu ou na arena de Itaquera | Fernando Dantas/Gazeta Press
O técnico Tite tem ciúmes do Corinthians que foi campeão paulista, brasileiro, continental e mundial. Não quer assistir a Mano Menezes no seubanco de reservas do Pacaembu. “Eu poderia estar ali, cara”, ele confessa, nesta entrevista exclusiva, uma das últimas antes de se despedir do clube que o consagrou.
O sentimento de Tite não é sem motivo. O Corinthians se tornou a casa dele. Tanto quanto o apartamento onde mora na Zona Leste, reduto alvinegro em São Paulo, que se recusou a vender em 2005 porque tinha a certeza de que voltaria a trabalhar no Parque São Jorge. Desta vez, a sensação de que nunca vai abandonar o time ficou tão forte que ele não disponibilizará o imóvel – mais um alvo dos seus ciúmes – nem sequer para locação.

Alugado pela Gazeta Esportiva durante cerca de meia hora, Tite ainda falou sobre o que o separa historicamente de Oswaldo Brandão, o comandante da inesquecível conquista do Campeonato Paulista de 1977. Para o treinador campeão da Copa Libertadores da América de 2012, o torneio sul-americano é mais relevante. Uma resposta que não desvaloriza o seu antecessor. Um gaúcho como ele – e também como Mano Menezes.

Gazeta Esportiva: No ano passado, você nos contou que não vendeu o seu apartamento em São Paulo após deixar o Corinthians, em 2005, porque já projetava retornar ao clube no futuro. Vai vender agora?
Tite: Não vou colocar à venda nem largar com imobiliária que coloca uns vagabundos ali dentro (risos)! Quando aluguei anteriormente, só tive problemas para mim e para os vizinhos. Então, não vou alugar mais! Foram vagabundos os caras da imobiliária e os inquilinos (risos)!
(O meia argentino Matías Defederico foi um dos inquilinos do treinador.)
GE: Mas você vai frequentar o apartamento? As inúmeras placas que ganhou ficarão nele ou em Caxias do Sul?
Tite: Foram muitas placas! Vou dividir isso em três lugares: Porto Alegre, Caxias e São Paulo. Tenho muitas coisas para espalhar por aí. Recentemente, peguei uma camisa com autógrafos de todos os funcionários. Eles me diziam: “Professor, você não existe!”. Mas o que eu fiz de mais? Quero autógrafos, ué. Foi a nossa equipe que venceu nos últimos anos. Tenho essa camisa guardada na minha casa. 

GE: Já tinha pedido autógrafos de funcionários em outros clubes?
Tite: Não, tive esse insight agora. Foi a primeira vez. É uma camisa branca do Corinthians, a 20 do Danilo.
GE: Por que a do Danilo?
Tite: Foi a que veio em minhas mãos na hora. Mas também queria um número de camisa de um jogador que representasse… Um dos meus capitães, vamos colocar assim. Perguntei para o Edízio (Borges de Almeida, roupeiro do Corinthians): “Que número é essa aí?”. Era a 20. Então, estava bom para mim. Foi uma grata surpresa.
GE: Você já se acostumou com tantas gratas surpresas nesses últimos dias de Corinthians? O reconhecimento ao seu trabalho parece generalizado.
Tite: A cada momento, eu me surpreendo com um fato novo. Sou um cara meio introvertido. Gosto de ficar no meu canto. Não é questão de ser tímido, e sim introvertido. E eu tenho o cuidado de não parecer marqueteiro. P…, não gosto disso. Não é para mim. Mas, ao mesmo tempo, eu me vejo no direito de falar algumas coisas que aconteceram e foram surpreendentes. O carinho do torcedor, de uma senhora… Pô, cara, hoje o zagueiro Felipe chegou para mim e falou: “Professor, a minha mãe queria ir ao jogo para lhe dar um abraço. Ela não pôde fazer isso e te mandou uns presentes”. Eram uma camisa polo e um terço de Nossa Senhora de Fátima.
GE: Esses são os seus últimos títulos pelo Corinthians?
Tite: Esses pequenos gestos me deixam muito feliz. A mãe de um atleta teve o reconhecimento pelo técnico. Isso sem falar naquele garoto, que ficou me esperando até uma hora da manhã, chorando, ou no presidente do Conselho, ou no grupo de funcionários… A cada hora, pipoca um negócio diferente. Pô, cara, que dimensão é essa? Um diretor do Internacional me mandou uma mensagem: “Estou quase chorando no restaurante. Tu estás jogando contra o meu time, e eu fico vibrando por ti, vendo essa coisa linda. Você merece essa homenagem”.
GE: No dia em que definiu a sua saída do Corinthians, você já imaginava algo semelhante?
Tite: Nem a parte mais otimista de mim esperava tudo isso. Eu até falava para mim mesmo: “Fique quieto, cara. Não crie uma expectativa alta, pois vai acabar se frustrando”. O pessoal do Corinthians me dizia: “Já foram vendidos 14.000 ingressos para o jogo da despedida”. E eu: “Bah, 14.000 ingressos por quê? Não está valendo mais nada! Eles vão ao estádio fazer o quê?”. Quando o Alessandro decidiu se aposentar, já pensei que o caldo engrossaria um pouco. Mas nunca passou pela minha cabeça que 36.000 pessoas assistiriam àquele jogo. No final da oração, depois da partida, o Alessandro falou: “Parece que o jogo teve quatro tempos para mim”. Senti a mesma coisa. Foi um turbilhão de emoções.
GE: Naquela noite, havia muitas placas com mensagens de “até breve” no Pacaembu. Você inevitavelmente voltará ao Corinthians?
Tite: Que isso não seja uma circunstância, mas uma coisa natural. Não quero nada forçado pelas minhas conquistas, induzido, motivado pela impaciência do torcedor com outro técnico. Podem pegar o exemplo e o legado do Tite quando eu sair daqui, mas deem força para que o próximo treinador reverta os maus momentos. Não quero que digam assim: “Ah, o Tite já ganhou tudo e tem que voltar para cá para resolver o que está errado”. Falo isso com sinceridade. Se eu for para um lugar em que o técnico anterior tenha feito um bom trabalho, também receberei esse tipo de cobrança, de comparação. Então, quando eu voltar para o Corinthians – e se voltar –, que seja de uma forma limpa, natural, espontânea. É preciso ter me-re-ci-men-to.
GE: Por outro lado, você mesmo não pode sofrer com essas comparações se voltar ao Corinthians? A expectativa não seria muito alta? Alguns técnicos vitoriosos em clubes brasileiros, como o Luiz Felipe Scolari no Palmeiras, não se saíram bem ao retornar.
Tite: Não tenho essa preocupação. Mas vou te dar um exemplo do que eu estava falando. Saí de um clube – não revelarei o nome – que jogou uma partida fora do seu Estado e não havia consumado a demissão do outro treinador. Aí, esse clube ficou ligando para a minha casa e falando assim: “Olha, vamos demitir fulano e queremos contar contigo”. Sem sacanagem, cara, foram mais de 20 telefonemas desse tipo. Vieram à porta do meu apartamento, e eu não atendi. Foram procurar o meu empresário, e eu avisei: “Resolvam o seu problema. Só vou me comunicar quando isso estiver resolvido”. Eu não queria ser o empurrãozinho final para eles derrubarem um cara. Tipo assim: só demitiriam fulano porque o Tite estava assegurado. Comigo, não!
GE: Esse técnico continuou empregado?
Tite: Moral da história: eu estava desempregado, e eles tiraram o profissional dali e escolheram outro para o lugar. Continuei sem emprego por ser ético. Porém, passaram-se dois, três dias, e eu estava feliz comigo mesmo, com o meu procedimento. Na hora, confesso que fiquei doido. Eu poderia ter acertado contrato antes e assumido o time depois. Não quis e fiquei em paz comigo mesmo.
GE: Você voltará a ficar desempregado agora. Acompanhará o trabalho do seu substituto no Corinthians?
Tite: Não vou assistir a um grande número de jogos do Corinthians. Sei que vou ter dificuldades. Humanamente, é complicado. Pretendo evitar.
GE: Imagino que, se assistisse a uma partida do Corinthians de 2014, você ficaria inquieto, projetando uma escalação diferente, as substituições que faria… Afinal, boa parte do elenco deverá ser mantida.
Tite: Eu pensaria até de uma forma mais egoísta do que essa. Na minha cabeça, apareceria: “Você poderia estar ali”. Com certeza, essa seria a primeira coisa que viria à minha mente. E não quero ter esse sentimento, que é inevitável. Eu poderia estar ali, cara. Não adianta mentir para vocês. Eu ficaria projetando o Corinthians de novo. Não quero. De verdade.
GE: Então, você vai se distanciar definitivamente do Corinthians após a partida contra o Náutico?
Tite: Depois de um tempo, posso até ficar maturando, deixando as coisas fluírem naturalmente. Mas, antes, é bom estar longe. Não quero ver, ouvir nem falar nada do que estará acontecendo com o Corinthians.
GE: Será difícil desvincular o Corinthians do Tite. Em 2005, você saiu de uma forma diferente: disse que retornaria para completar uma passagem interrompida de maneira prematura.
Tite: Acho que completei mesmo. Se voltar de novo, será para repetir o que fiz, e não mais para completar (risos). Vou ganhar mais o quê? É muito difícil ter um novo ciclo igual a esse.
GE: Quem te contratar agora…
Tite: Não venham me contratar achando que tenho uma fórmula mágica para esse ciclo do Corinthians, pois isso não existe. Até porque não fui só eu. Sou a bola da vez agora, mas a direção, os atletas, os funcionários e a torcida também foram excepcionais. Então, não me procurem pensando que, levando o campeão da Libertadores e do mundo, terão isso aí também.
GE: Para alguns torcedores, o que separa o técnico campeão da Libertadores e do mundo do Oswaldo Brandão é apenas a quantidade de jogos no comando do Corinthians.
Tite: Qual é a diferente de jogos entre ele e eu? Ele tem uns 700, será? Bah! Não! Não dá para mim! Eu tenho uns 200.
GE: O Brandão tem 439 jogos pelo Corinthians.
Tite: Dá para alcançá-lo, então?

GE: Com mais uma passagem sua pelo clube… Se bem que, com a iniciativa do Bom Senso FC de encurtar o calendário do futebol brasileiro, ficará difícil.

Tite: Vamos tirar esse Bom Senso daí, então (risos)!
GE: Você é muito ligado à história de técnicos vitoriosos no passado, como o Zagallo. O que sabe sobre o Brandão?
Tite: Sei que o campeonato de 1977, vencido por ele, foi um marco. Eu era garoto e acompanhei aquela campanha. Sabia da qualidade da Ponte Preta. Conheço bem a história porque aquele título transcendeu o Estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, eu pensava: “O Corinthians está há tanto tempo sem conquistas e ficou próximo disso agora!”. Aquilo foi um bum. Com um técnico gaúcho, então… (Oswaldo Brandão era natural de Taquara-RS)
GE: A origem do Brandão foi um diferencial para você?
Tite: Porque o lado bairrista do gaúcho pesa em uma hora como essa. A gente falava: “Oswaldo Brandão! Um técnico gaúcho foi a São Paulo e teve essa grande conquista de 1977!”. Também me lembro de Basílio, Ruço, Biro-Biro, Tobias, Super Zé, um cara de quem guardo um slide da representação de sua raça até hoje. Para jogar no Corinthians, é preciso ter um pouco de Zé Maria. Aqui, você deve apresentar uma pitadinha de Ralf, de Guerrero…
GE: Você cita bastante os jogadores de 1977, comandados pelo Brandão. Esse título foi mais importante para o Corinthians do que a Libertadores de 2012?
Tite: (Suspira.) Em termos de sede de título, o paralelo é válido. Mas a dimensão… Sem falsa modéstia, a Libertadores é maior. Talvez o cunho de tanto tempo sem esse título… E foi um título de Libertadores! Ainda me surpreendo com as pessoas emocionadas, que chegam até mim: “Tu não sabes, cara! Esperamos mais de cem anos por um título de Libertadores! Ninguém mais virá até nós para querer zoar! Ninguém mais! Tu não sabes o que é isso!”.
GE: Já sabe o que é isso agora? Na época da conquista, você dizia que não tinha a dimensão exata da conquista.
Tite: Sei. Bastante. Deu para avaliar, sim.
GE: O Paulinho foi um jogador fundamental para o seu Corinthians campeão da Libertadores. Muito tempo antes do torneio, ainda em 2011, você nos fez essa previsão: “Paulinho está jogando muito. Será bem importante”.Tite: Eu falei isso?
GE: Falou. Até soou estranho naquele tempo, já que o Paulinho ainda não tinha o reconhecimento de hoje.
Tite: Não costumo individualizar as coisas. Você conseguiu arrancar algo muito difícil de mim. Para tirar um nome da minha boca, é muito difícil. Então, se eu falei o do Paulinho, é porque realmente tinha muitas expectativas. Eu via nele um jogador crescendo nos quesitos técnicos, melhorando mentalmente.
GE: Consegue fazer outra previsão hoje? Quem do elenco atual pode crescer nos quesitos técnicos e melhorar mentalmente, como um dia fez o Paulinho?
Tite: Renato Augusto, com saúde, é jogador de Seleção Brasileira.
GE: A sua relação com os seus comandados, não só com o Renato, é bastante forte. Manterá contato com eles quando deixar definitivamente o Corinthians?
Tite: Isso seria natural, partindo de cada um. O que eu teria dificuldades é de jogar contra as pessoas que quero bem. Mas seria um problema só para a hora do jogo.
GE: Nesse hipotético jogo contra o Corinthians, você estranharia frequentar o vestiário visitante do Pacaembu, ficar no outro banco de reservas e conceder entrevista coletiva na sala ao lado?
Tite: Não tinha pensado nisso. É… Talvez não pesasse tanto, pois já estive como visitante no Pacaembu com Grêmio, com Internacional. Mas, na hora de entrar em campo e ver o clima do estádio… O que vai facilitar é que não será no Pacaembu. Se fosse no Pacaembu, seria complicado suportar.
GE: Mesmo na arena de Itaquera, seu nome vai ser novamente gritado pela torcida do Corinthians, como nas homenagens da sua despedida.
Tite: (Fica em silêncio durante alguns segundos) Não sei.
GE: Com certeza. Você sabe disso.
Tite: Acho que sim. Pelo reconhecimento que estou tendo agora, acho que sim.


Fonte: Gazeta Esportiva