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| Foto: Arquivo Pessoal |
Por: Danilo Vieira
A realidade para muitas famílias que residem no estado de São Paulo é mais difícil. Nas periferias e em bairros mais humildes, a batalha para ganhar o pão de cada dia é rotina distante para quem está confortável num bonito apartamento de algum bairro nobre. Por conta do abando do estado, muitos caminhos se perdem e desviam-se do trilho certo. Esse é um inegável e duro fato.
É neste contexto que surge a arte para salvar vidas e mudar destinos. Prova disso é a caminhada do MC de Grime, Alexandre “AFK”, paulista de 20 anos, nascido em Jundiai, interior de São Paulo. Corinthiano de infância, o MC traz o Corinthians como referência em todos os três clipes lançados até o momento no Youtube, seja na maneira de se vestir, seja em citações em letras. “Literalmente esse é o gol de letra, fora da área sou o Vampeta“, diz parte de uma delas.
“O Grime é um estilo musical de Londres. É uma mistura de Rap com Eletrônica. É mais acelerado e com elementos diferenciados do que estamos acostumados no Rap. Ele tem uma ideologia por trás que se difere muito da industria americana, a gente tem o TRAP que se assemelha ao Funk Ostentação onde as pessoas falam do valor do seu cordão. A própria tradução do Grime diz o que é o estilo. É sujeira. Ninguém vai querer saber o carro que você tá andando, o tanto de dinheiro que você tem. Ele tá aí pra falar da sua rua, da sua vivência. Você falar dos seus manos. É protestar, passar um conselho de uma forma bem enérgica. O Grime é rua”, conta AFK.
“O Grime tá ganhando muito espaço aqui porque as culturas se assemelham. Lá eles gostam de futebol, aqui também. São países com a cultura de rua bem parecidas”, concluiu.
As letras de Alexandre mostra a realidade dos jovens da periferias de maneira direta e clara. “Inimigo do sistema”, assim como diz na música “10 e Faixa”, AFK acredita que a arte pode modificar a vida das pessoas. “(…) é possível viver da arte aqui”.
“Eu to nessa pra fazer minha parte, levar a bandeira do meu bairro. Aqui tudo chega por último. Então já que o Grime é pra falar de onde você é, estou aqui pra levantar bandeira disso, pra mostrar que aqui tem voz e tem arte. Que é possível viver da arte aqui. To aqui pra provar que é possível, falar das coisas boas e ruins, pra passar uma visão que pessoas que já se encontraram com as mesmas coisas díficeis que eu, e se identificar com uma parada e tomar uma outra atitude. Aconselhar uma pessoa que esse pode ser um caminho melhor, o caminho da arte”.
“Deixa a 10 e a faixa eu assumo, ontem tinha nada hoje eu quero tudo. Vem na fonte que essa não seca, SP amor e ódio na atmosfera – trecho da música “10 e Faixa”.
“Aqui tudo chega por último”, disse AFK quando pedi para ele falar mais sobre a caminhada dele e de como o Grime surgiu na trajetória. A realidade no Brasil, sétimo país mais desigual do mundo, é essa e não tem para onde fugir. Ouvi os clipes lançados por ele algumas vezes para entender a mensagem. As letras trazem consigo protestos pesados sobre mazelas da socieade. Não se assuste se você encontrar esse recado na música “Etiqueta”. “Os meus truta de capuz tão sem luz e sem trabalho, e se não render dinheiro vai render noticiário. É mó papel de ótario achar que Cops são do bem, vai lá no reformatório e vê se reformaram alguém”. É assim que Alexandre expõe o que anda acontecendo nas ruas de São Paulo.
O Rap é referência na caminhada de AKF. Ele explica a relação com o estilo musical fazendo um paralelo com o Corinthians. “Minha história começou no Rap. Antes do Grime eu fiz Rap. É como o Corinthians, nasceu comigo, cresci ouvindo Rap. Eu sempre fui a pessoa que curtia decorar a letra já cantando. Ouvir e pensar ‘isso que ele tá falando já aconteceu comigo’. Com 15 anos eu escrevi um Rap e cantei no Saral da escola, foi a primeira vez que cantei um Rap”, lembrou.
“Quanto mais o meu trampo me rende, mais eu fico sem dormir. Droga! – trecho da música “Etiqueta”.
Por fim, AKF falou sobre a relação de amor com o Corinthians. “A minha relação com o Corinthians existe antes de nascer. Tem foto minha no berço com a camisa do Corinthians. O Corinthians me acompanhou a vida toda. Os parantes sempre se reuniam para assistir os jogos. Assistia com meu pai, o Tevez marcava gol e meu pai endoidava. É uma parada bem louca. As pessoas torcem para o Corinthians, e quanto mais elas conhecem a história do clube, mais corinthiano você fica. Descobri quem fundou, como que era as coisas. E quando eu vi a história do Corinthians, tudo fez sentido. Você entende o motivo de ser corinthiano. Meus pais, tios, avôs, todos operários. Somos de família bem humilde. A história do Corinthians é parecida com a da minha família. Não tem como explicar, só quem é corinthiano vai entender”.
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